quinta-feira, dezembro 01, 2005

Vantagens e desvantagens de ter um namorado imaginário

De vez em quando, ao ver um qualquer filme na televisão, sou confrontada com uma infância comum e ordinária de qualquer criança em crescimento: a do amigo imaginário. Ora eu nunca partilhei desta festa da imaginação, pelos menos que me lembre. Aparentemente esqueceram-se de me convidar. No entanto, porque o tempo não volta para trás e porque nunca é tarde de mais para tentar, agora, aos 24 anos, parece-me uma boa idade para treinar isto de imaginar companhia.

Eu diria que as relações a que temos tendência de classificar como mais problemáticas são as relações amorosas. Então, aqui, porque não imaginar um companheiro? Tudo bem, existem contactos físicos que não se imaginam. Ora isto nem sempre é verdade, mas de certeza que se o problema fosse o contacto físico não existiriam problemas. A questão é o contacto emocional que somos capazes ou incapazes de "fabricar" com o parceiro que escolhemos ou que nos escolheu. Embora eu considere que o contacto emocional não vive sem o contacto físico, é certo e sabido que existem determinadas situações em que é possível imaginar ligações a nível psicológico quando a concretização física da pessoa não é possível (e isto diz absolutamente nada acerca da validade dessas ligações).

Bem, o que interessa aqui, é a possibilidade de criar um companheiro imaginário que nos preencha o vazio psicológico que um companheiro físico não consiga preencher. Será possível? É como a velha história do se acreditares com força suficiente, acontece. Eu não digo que não me vá acontecer a mim, até porque da maneira que as coisas andam sou capaz de chegar a acreditar que uma imaginação forte vence qualquer obstáculo. Olhem para os esquizofrénicos. Digam lá que aquilo não é uma imaginação fantástica. Tudo bem que depois pode e provavelmente dá problemas, mas também, o que é que não dá?

Afinal, o que pode fazer por nós um namorado imaginário que um real não possa?
Se estivermos a falar de pessoas reais, temos de ter em conta que a disponibilidade mental para lidar com os problemas dos outros nem sempre está presente. Pois bem, se o namorado for imaginário, é a nossa imaginação que o controla, controlando a sua disponibilidade a todos os níveis, controlando o seu tom de voz, as suas palavras, o seu grau de atenção. É óbvio que não pretendo afirmar que o que procuramos num companheiro é uma atenção constante, disponibilidade total e doçura sempre que estamos por perto. No fundo, a nossa eterna insatisfação leva-nos a rejeitar tudo o que se aproxime a uma constante perfeição daquilo que nos faz falta. Ao deixarmos o nosso inconsciente tomar conta do nosso namorado imaginário, estaremos, subtilmente a entregar a nossa vontade às coisas que mais nos fazem falta, mesmo aquelas que não estamos dispostos a admitir. Deste modo, seria de esperar que o nosso companheiro imaginário nos tratasse exactamente da maneira que estamos à espera, mesmo que essa maneira não fosse a vulgarmente concebida como perfeita.

No entanto, resta-nos um pequeno problema: o sexo. Sim, ele faz falta, a carícia faz falta. Como então resolver o problema da proximidade física de um parceiro que não é real? Na verdade, o que a nossa imaginação não pode fazer, o engate faz por nós. As breves aventuras sexuais ou apenas sensuais poderão facilmente preencher a solidão física se também aqui, a nossa imaginação der o seu contributo, tanto no aspecto físico como nas palavras ditas e ouvidas. Para além disso, é de referir, que esta necessidade (e por mais absurdo que isto pareça, é verdade) pode igualmente estar suprimida em casos de extrema privação emocional, onde o desgosto físico e sentimental excede em muito a nossa capacidade para sobrevivermos às constantes quedas amorosas em que somos capazes de nos envolver.

Posto isto, o namorado imaginário atingiu um ponto de perfeição que se depara apenas por um incontornável obstáculo: a mítica boleia. Por mais que seja possível imaginar um companheiro mental e emocional, um contacto físico (que poderá ser uma satisfação solitária) existe algo que sempre ficará inimaginável ou pelo menos imaginável num ponto intocável: o carro e as potenciais boleias que um verdadeiro namorado poderá providenciar. Por mais bonito que seja esta imaginação fértil, imaginar a presença de um carro e de alguém que o conduza é uma actividade demasiado física para a nossa mente.

Por isso, após ponderar as duas hipóteses, será apenas justo dizer que os dois tipos têm um momento/oportunidade certa para ocorrer. Não há que descartar hipóteses. Quando nunca se teve a oportunidade de usufruir de companhia imaginária, porque não experimentar numa altura em que a presença física de um ser emocional só causou mais estragos na nossa vida, mais estragos do que aqueles que somos capazes de produzir sozinhos.

Algumas notas
1 - O post refere-se constantemente a companheiro/namorado, no entanto é de acrescentar a vertente feminina nas palavras, aplicável a toda a extensão do post, com a excepção da boleia que não será tão evidente.
2 - Quem me dera ter uma imaginação tão forte que produzisse presenças físicas.
3 - Na maioria das vezes, aquilo que não faz um namorado, um amigo consegue fazer.
4 - O bom disto tudo é que quanto mais pensamos no que causa a nossa dor, menos dói, pelo menos mais lá para o fim.

4 Comments:

At 7:55 da tarde, Blogger Adriana said...

Excedi-me em muito na extensão do post, mas também não é nada que já não tenha feito.

 
At 10:38 da tarde, Blogger Diana said...

Acho que esse post tem uma mensagem subliminar para mim: "Diana, arranja mas é um namorado imaginário..." As boleias não são propriamente um problema para mim, visto que não me movimento muito.

 
At 10:41 da tarde, Blogger Adriana said...

Mas vais começar a movimentar-te...

 
At 5:08 da tarde, Anonymous A said...

na parte do sexo, podem sempre apostar numa real doll...

www.realdoll.com

tem algumas desvantagens:
não são animados, logo não se pode esperar muito deles

e são demasiado perturbadores. tipo se fossem usados em filmes de terror, não me admirava

 

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