domingo, março 12, 2006

Só mais uma maneira de ser

Há uns dias atrás, tive uma saudável discussão sobre o sombrio, sobre a tendência para a depressividade e para o cultivo do sofrimento inútil e individual. Eu admito que sou assim, admito que estranho olhar-me ao espelho e não ver por cima dos meus ombros o peso do meu pensamento. Apercebo-me também que conheço algumas pessoas que partilham comigo este prazer moído em reviver o sofrimento e em deixar que nos marque de formas irreversíveis. É provável que toda a gente tenha esta tendência numa ou noutra altura da vida, é provável que muita gente utilize o direito à depressão como forma de chantagem e de chamada de atenção. No entanto, para alguns, o cultivo é sincero e pessoal e, de preferência, não depende nem envolve a observação de terceiros ou sequer o seu reconhecimento pela validade do nosso sofrimento. Na realidade, a solidão do ciclo vicioso em que sozinhos pintamos o mundo é a última razão pela qual queremos incomodar. Disseram-me É porque somos sensíveis que somos assim, é porque nos apercebemos das pequenas coisas, das pequenas mudanças no ambiente, no nosso ambiente que, logicamente, ponderamos o que virá. Sabemos do nosso canto e do porquê de ele estar lá, achamos que ninguém nos compreende porque, no fundo, o canto que construímos tem dono e é onde nos sentimos mais verdadeiros. Porque cultivamos a nuvem cinzenta que paira no nosso semblante, que muito raramente deixa passar o sol, e que nunca depende de alguém para além de nós. É o nosso reduto, e preferimos a melancolia do som ao céu aberto. Não somos incapazes de estar bem, mas conhecemos de cor o que é estar mal, e, simplesmente, também estamos bem com isso.


PS: Eu falo em nós, mas é mais um eu do que outra coisa qualquer.

2 Comments:

At 12:47 da manhã, Blogger A said...

pode ser por não se conseguir ser de outra maneira

 
At 10:57 da tarde, Blogger Diana said...

Acima de tudo, é medo. Eu falo por mim, e por todos os que, concordando mentalmente com isto, não têm nada que admitir que pensam como eu.

 

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